Caeiro, também aqui, é o mestre. Este blogue é mantido por Possidónio Cachapa e todos os que acham por bem participar. A blogar desde 2003.
11 de janeiro de 2007
10 de janeiro de 2007
Consta que um prédio na martirizada Quarteira se inclina para o suicídio. Ganhou o nome de "Torre de Pisa de Quarteira", por ter um afastamento (ou aproximação ao solo) de 30cm.
Interrogado sobre as medidas a tomar, o presidente da cãmara explica que os proprietários vão ser intimados a fazer obras de recuperação e como o prédio é recente estes, por sua vez, devem pedir responsabilidades ao construtores. Quanto aos fiscais que deveriam ter avaliado a consistência do solo e se os materiais de construção propostos tinham sido respeitados, nem uma palavra. A incompetência (e eventual corrupção) é para esquecer. Quem vier atrás que apague a luz.
9 de janeiro de 2007
Basta olhar para os protagonistas dos diversos movimentos, para as frases escritas a rosa em outdoors municipais para perceber que a futura liberdade de escolha não é nem um direito adquirido, nem está ao alcance de todos.
Por outro lado é bom ver como os homens, sobretudo banqueiros (absolutamente sem ligações aos grupos religiosos ou apreço pelo cilício) se interessam pelas questões das mulheres... Gente com tanta vontade de proteger o sexo fraco... Mais generosidade deste género só na Arábia Saudita.
Se ainda houvesse alguma esperança na existência de um pingo de vergonha no mundo do futebol, o resultado da telenovela abaixo mencionada é gritantemente elucidativo. O senhor aceitou que as suas declarações anteriores eram falsas DEPOIS de saber que o a sua dívida (mais de 600 mil euros) estava fora do alcance dos contribuintes.
Tudo relativemente dentro da "legalidade". Claro que se um de nós, cidadãos de baixo e médio rendimento, dever 50 cts às Finanças seremos perseguidos com cartas registadas, processos e penhoras.
A não ser que tenhamos advogados espertalhões, claro.
4 de janeiro de 2007
No mesmo dia em que o jogador João Pinto lá foi meter os pés pelas mãos e dizer que se calhar era capaz de ter recebido alguma coisinha (tipo 400 mil contos) sem dizer nada ao fisco, que é a gente por interposta pessoa, os jogadores ameaçam com greve se não forem para a reforma aos 30 anos. O desgaste rápido e tal. Este governo não tem mesmo sentimentos para com os nossos deuses intocáveis. E a argumentação de que existem centenas de profissões que também poderiam pretender o mesmo tratamento não colhe. Primeiro, porque se trata de FUTEBOL (vénia prostrada), segundo, porque não se pode tratar toda a gente bem... Deviam ficar quietinhos e deixar futebolistas e deputados ir descansar quando se vissem cansaditos.
Falta de sensibilidade, pá!
2 de janeiro de 2007
Na verdade, o que eu quero dizer mesmo é que se dermos o nosso melhor (o melhor mesmo, não a nota mais forte ou mais agressiva) se a meia-dúzia de não-alienados (ou que lutamos por isso) nos unirmos, poderemos melhorar as coisas. Isto é, escrevermos coisas com interesse, pintarmos bons quadros, contribuir para que a justiça nos tribunais onde trabalhamos funcione de forma mais justa, recebermos nas repartições públicas o público com mais humanidade e vontade de ajudar, nos hospitais e clínicas tratarmos os que sofrem como pessoas... que sofrem, então, 2007 será melhor do que 2006. Mesmo que a maior parte do país e do mundo tussa com desagrado e nos agite o punho na cara :)
Bom ano, amigos!
31 de dezembro de 2006
Um ano difícil chega ao fim. Horribilis a muitos títulos. A crise financeira veio para ficar, apesar da loucura natalícia nas lojas. O pior dos portugueses veio ao de cima e o "salve-se quem puder" está mais forte do que nunca.
Foi o ano do aparecimento descarado da "crítica light", a movida pelo desprezo total pelo mérito dos autores e pelo despeito pessoal. Gente do mais medíocre publicou livros que afirmam não ter o país, à excepção dela própria (dona de uma ficção inexplicavelmente recusada por todas as editoras...), escritores a sério. Os que cá andamos somos todos uma merda e a salvação virá das suas construções de lama. Para grande surpresa, estas afirmações foram recebidas e amplificadas com aplauso ou com uma cumplicidade reveladora.
Sobre este assunto, ficam registados dois dos votos de Miguel Sousa Tavares no EXPRESSO para o próximo ano: "Que, em todos os sectores da vida pública, o talento, o mérito e o trabalho triunfassem sobre a inveja, a incompetência e a mediocridade". E o segundo: "Que o país se concentrasse na defesa daquilo que é essencial: a língua, a cultura, a educação, o território, o património e a paisagem". Não creio que estes desejos se concretizem, pois como afirma Clara Ferreira Alves na mesma página "Um grande ano de 2007 seria aquele em que deixássemos de ter o desejo, a necessidade, a obrigação, o nojo de partir". Porque "isto" não vai mudar. E "isto" é Portugal.
Por isso, para os mais sonhadores desejo que se mantenham no ar, no território das nuvens, lá, onde as vozes dos predadores não chegam. Para os que preferem andar com os pés na terra, votos de muita coragem, porque o lixo trazido pela maré baixa vai continuar a colar-se à cara das pessoas honestas.
"Narcisus", Caravaggio
30 de dezembro de 2006
O presidente dos states já veio afirmar que o enforcamento de Saddam "vai ser bom para a paz mundial". Ao ouvir isto e ver as imagens do suplício percebemos que na Europa já não estamos no lugar histórico-medievo de onde o ditador provinha, nem tão pouco no mundo de faroeste dos USA que tantos tomam como modelo de desenvolvimento.
Repugnante.
29 de dezembro de 2006
"Quatro sociedades de desenvolvimento criadas pelo Governo, constituídas com capital público, contraíram este mês junto da banca um empréstimo no valor global de 500 milhões de euros. A operação não necessita de autorização do Governo, mas acaba por agravar indirectamente a dívida da Madeira. Aliás, esta não é a primeira vez que o governo regional se socorre desta forma de desorçamentação ou engenharia financeira. As sociedades de desenvolvimento foram criadas para contornar o endividamento zero imposto pela antiga ministra Manuela Ferreira Leite...."
in DN(o de Lisboa, óbvio)
28 de dezembro de 2006
Numa altura em que os tribunais portugueses continuam a fazer questão em "ser cautelosos" no afastamento de pais fisicamente abusadores, presumo que "para ver se se emendam...", em que milhares de pessoas aguardam a sua vez na longa fila da adopção, uma outra criança foi morta (presumivelmente, claro) vítima de maus-tratos. O cretino preconceito do predomínio do sangue sobre o amor causa e continuará a causar vítimas.
Até ao dia em que os legisladores metam os preconceitos bíblicos e o moralismo abraanico na gaveta e comecem a perceber que há pais e pais. E que para sermos dignos desse nome temos de nos esforçar todos os dias.Fazê-los é fácil, amá-los e protegê-los é que custa. E, já agora, que anda por aí muita gente que tem mais condições de coração do que muitos "naturais".
20 de dezembro de 2006
DICIONÁRIO DE NOMES FAMILIARES
Se existisse um dicionário de relações familiares teria entradas assim:
FILHOS- O que sai de dentro às mães e dos olhos aos pais. Camada que recobre o coração de forma permanente e indelével. Prolongamento de nós sendo outro. Razão mais que suficiente para renunciarmos à solidão humana.
IRMÃOS- Castigo inicial que se transforma em apoio lateral com os anos. Aquele ou aquela que estará do outro lado da linha telefónica - ou do que vier a ser inventado - a pedir ou a dar ajuda. Pelo menos até que a sua nova condição familiar o/a não consuma. Quem nos dá a certeza de que nem sempre fomos assim.
PAIS- Aqueles que estavam quando ainda só eles estavam. Os que recuaram quando outros chegaram. Os que avançaram quando outros recuaram. Os que se esqueceram da idade e das dores à vista das nossas dores e sem olhar à nossa idade. Os que vão estar aqui até que, seguros pela nossa mão, deixem de o estar.
AMANTE/AMIGO/AMIGA/HOMEM/MULHER- Todo o que nos ama para lá das nossas perfeições. O elo mais frágil da cadeia. Aquele em que nos apoiamos com mais força por ser do mesmo tamanho que nós e estar treinado no nosso passo de saltador de valas inundadas. O que pode mudar e quase sempre muda. O indispensável.
18 de dezembro de 2006
Alberto João Jardim estrebucha que este é o "ano da besta". Esta referência ao seu anus horrível assentará naturalmente no anúncio do fim do seu reinado com o dinheiro dos outros. Mas há motivos para lhe dar razão sobre 2006. Um deles é que até o João César das Neves já escreve contos.
Aqui, a prova do horror.
16 de dezembro de 2006
Já se sabe quem serão os perús perdoados por George Bush neste Natal? Os felizardos que irão viver para o calor da Flórida?
Devem ser de origem iraquiana, com certeza...

Ah... espera, não é no Natal... É no Thanks Giving... Bom, alguém deverá ser perdoado. Provavelmente um dos milhares de negros condenados à morte que aguardam a sentença.
14 de dezembro de 2006
13 de dezembro de 2006
A LUZ ARTIFICIAL DAS LÂMPADAS
Vamos dar pulseiras de ouro um ao outro e fantasiar que ainda nos amamos. Vamos cobrir a mesa com bolo-rei, broas de mel e rabanadas, enquanto sorrimos às crianças estonteadas que somos nós correndo à volta da mesma mesa. Ligar alto a televisão para não ouvirmos a chuva que cai na casa. No interior da nossa própria casa.
Este natal vamos descongelar um peru e enfiar-lhe no peito aberto pão, castanhas e as suas próprias vísceras (banhadas em vinho do porto, pois claro, para que não saibam a entranhas e o corpo de onde vieram as não rejeite, por impuras). E quando a gordura arder sobre a pele sem penas vamo-nos concentrar no cheiro para não pensarmos que na rua ao lado dorme, sobre um cartão, um outro corpo imerso em álcool. Este natal vamos de novo ser caridosos e beijar o pé do menino enquanto nos sentimos a melhor pessoa à face da Terra. Os lábios bem apertados para que não nos tomem por fracos capazes de entender que cada um tem os seus próprios pés e que só houve Um capaz de beijar sem escolher.
Este natal vamos enrolar as pérolas à volta do pescoço e simular que exibimos o coração. Ou, para lá do condomínio, carregar o carro do hiper com coisas que não poderemos pagar mas cuja dívida será como um colar de pérolas em volta do pescoço.
Este natal vamos ser humanos voltar a fingir que nos interessa mais alguma coisa do que travar o avanço inexorável da nossa morte.
12 de dezembro de 2006

A SAIA DA CAROLINA TEM UM DRAGÃO PINTADO
Que chatice, agora que o Ministério Público já estava a arranjar as coisas para deixar o processo dos apitos e dos árbitros e dos construtores civis e dos autarcas, criar pó e morrer, vem a mulher abandonada pôr a boca no trombone.
Até o Procurador Geral da República se "mostra preocupado".
Se calhar não vai poder ser tudo abafado como previsto
Chatice! Estas gajas não têm compreensão para assuntos sérios. Futebol e corrupção e assim.
E o pior é que de momento não se pode simplesmente mandar dar-lhe uma sova...
Vão ter que pensar noutra estratégia. Provavelmente formal, ou não vivêssemos numa justiça de papel.
11 de dezembro de 2006
agradecer aos professores deste país que fazem o favor de mostrar os meus textos aos alunos, pedir-lhes que comentem ou façam trabalhos em seu redor. Se isso ajudar de alguma forma a criar ou desenvolver o amor pela Literatura e pelo Conhecimento, então muito obrigado.
Nenhum de nós está a mais no combate contra a ignorância galopante.
Recebi e-mail do meu amigo Perfecto Quadrado, uma das autoridades mundiais do estudo da literatura portuguesa, habitante das Canárias que é terra de mais sol do que cá. E conhecedor do trabalho de Cesariny como poucos.
"Morreu-nos o Mário (Cesariny). As trevas, como dizia Pascoaes, são cada
vez mais trevas, o que causa grande regozijo nos cadáveres adiados que
procriam na caverna."
Respondi-lhe que era tudo verdade. Mas que as trevas sempre precederam a luz. A ignomínia está espalhada por cima da ignorância, mas nunca nos atingirá a todos.
Seria contrário à natureza humana.
9 de dezembro de 2006
Numa terra em que toda a gente se queixa que não a deixam fazer nada, foi bom carregar estantes de ferro encontradas no lixo e que agora servirão de teia para projectores. Recortar cartões que serão utilizados como palas para as referidas luzes. Empurrar sofás para cá e para lá enquanto discuto com a minha colega co-realizadora os melhores planos que iremos filmar amanhã com a mini-Dv que nos emprestaram. E amanhã, ao fim do dia, estaremos com o resto dos voluntários cansados e sem dinheiro para cattering ou seja lá para o que for. Mas estaremos um passo à frente dos que usam o seu tempo para se lamentar ou tentar destruir os que imaginam como inimigos.
E isso, companheiros, ajuda a dormir em paz :)
7 de dezembro de 2006
Se houvesse dúvidas sobre o iliteracia dos portugueses bastaria olhar para o top da Fnac que tem entre os primeiros lugares (desde há semanas) as últimos dois milhões de páginas do José Rodrigues dos Santos, o livro de queixas do Santana Lopes e um romance sobre a vida de um cão.

ps: alguém me pode informar se para fugir de Portugal ainda se tem de ir "a salto" ou se já se pode ir pela fronteira?
6 de dezembro de 2006
As finanças andam a decretar buscas a empresas de construção por suspeita de evasão fiscal.
Nâo! A sério?
Se encontrarem alguma coisa ficarei muito espantado. Construtores corruptos?
Daqui a pouco vão começar a dizer que há autarcas igualmente corruptos que lhes facilitam as negociatas...
Onde isto haveria de chegar...
30 de novembro de 2006
Por andar distraído só agora reparei que o único programa sobre livros da televisão pública foi banido da antena. Sim, existe um outro que também fala e recomenda livros, sem que esse seja o seu objecto.
Sinto flexInseguro num país em que NUNCA um escritor é convidado para telejornais nos canais generalistas (o cabo, felizmente, vai abrindo excepções), e o lançamento de um livro de ficção NUNCA é notícia. Quanto muito será o fait-divers à volta do lançamento.
Não posso crer que não exista em Portugal nenhum Bernard Pivot. Alguém que reúna o dom da palavra, algum conhecimento literário e uma forte assessoria por detrás.
E já que só ouço falar nos valores (inflaccionados) necessários para se fazer seja o que for, pergunto quanto custam uma mesa, 4 cadeiras, um pano de croma atrás e o uso de técnicos e equipamento que de qualquer maneira já será pago?
Assim nunca mais...
29 de novembro de 2006
Todos os dias se aprende. Mesmo a contragosto. O quotidiano como um banco da escola onde todos os dias tem de se estudar matemática e física, mesmo se gostaríamos de nos ficar pela leitura e interpretação de texto.
E nunca se pode faltar. Nem ficar doente.
E desconfio que as férias também se acabaram de vez...
27 de novembro de 2006
Nesta edilção do jornal Expresso, Luisa Schimdt alerta para a situação da construção do empreendimento vendido como Alcântara XXI. Mais uma ponta do icebergue da pavorosa governação lisboeta de Clown-Lopes e Carmona Rodrigues. A coisa não só tem atrapalhado o trânsito como estará edificada sobre um leito de cheia, uma zona de aterro inundável, um solo de aluvião, um corredor eólico, um braço de mar e uma falha sísmica. Já se pode antever que mais dias menos dias, os yupees que ali gastarem os muitos milhares de contos de cada apartamento irão por água abaixo, terra abaixo ou céu acima. Não que se perca muito com o assunto, provavelmente. Mas ainda assim vai ser uma trabalheira para os bombeiros e o trânsito ficará péssimo por esses dias.
ps: a sorte desta jornalista é não morar num país da américa latina. E o azar não morar num sítio instruido. No primeiro caso já lhe teria acontecido alguma desgraça. No segundo, os seus avisos já teriam sido ouvidos e alguma coisa feita para minorar os danos. Mas por aqui, neste país de pantomineiros o vento leva-lhe as palavras. Vai-se a ver, Portugal está instalado num corredor eólico...
26 de novembro de 2006

não foi apenas o poeta surrealista, o pintor. Foi também o homem descarado que insistia em esfregar a sua ânsia de se mostrar vivo nas nossas provincianas caras.
Descansem as almas pudicas que já podem mandar inaugurar uma rua com o nome dele.
"Faz-me o favor...
Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê. "
M.C. V.
24 de novembro de 2006
Como não há meio de verem qualquer medida que prove que existem, quanto mais que têm direitos, as principais associações e sindicatos dos profissionais do cinema, doteatro, da música, da dança, do circo e de outras artes do espectáculo, unem-se para reivindicara criação de um regime laboral e de segurança social que se adeque àsespecificidades do sector e preencha o vazio legal existente.A Plataforma das Organizações Profissionais das Artes do Espectáculo e Audiovisual convoca, assim, todos os interessados a estarem presentes no próximo DIA 27 de NOVEMBRO, SEGUNDA-FEIRA, às 18h30 noTeatro da Comuna (Praça de Espanha, em Lisboa) para o lançamento de uma petição unitária que procure chamar a atenção para os problemas do sector.
Parece que uma das sociaites que nos andam a insultar há anos com o seu desprezo levou um estalo dado por um arrumador.
Acho que era urgente que se descobrisse onde está esse malvado. E se a coisa se confirmar irmos lá, severamente, dar-lhe uma moedinha. Dez milhões delas, para ser mais exacto.
Dizer NÃO à violência, em resumo.
23 de novembro de 2006
Isabel Pires de Lima, a ainda ministra da cultura em Portugal, vai estar hoje à noite na Casa Fernando Pessoa a perorar sobre o assunto em epígrafe.
Provavelmente, poderia resumir o seu discurso a "Comer e Calar". Não há grande diferença entre a actual equipa do ministério e a presidência de Américo Tomás no antigo regime. Salazar mandava e o homem vinha cortar fitas, dar a cara e apoiar a desgraça.
Pode ser que alguém pergunta à senhora se ela tem consciência que o reprovável na actuação do seu gabinete não é ter reduções no orçamento mas sim não dar aos agentes da cultura qualquer ideia que possa reequilibrar o processo. Limita-se a acenar que sim a Sócrates (que remédio), a gerir dossiers que vinham do tempo da inenarrável Teresa-Cansada-da-Guerra-Caeiro e a meter os pés pelas mãos. O desalento causado entre aqueles que lutam todos os dias para se manter vivos e afastar o país das trevas é cada vez maior.
Creio sinceramente que deste lado do Atlântico também sofremos de desilusão lulista. E, para fazer rima, sem fim à vista.
22 de novembro de 2006
Os gatos fedorentos romperam um terreno que resistiu a todos os governos. Com o apoio da direcção de programas da RTP (por uma vez, a mostrar coragem e ousadia). Ao fazerem (e deixarem passar) o maravilhosamente achincalhante sketch do Santana Lopes, fizeram história. Pela primeira vez na televisão nacional brincou-se descaradamente com um político. Que é o mesmo que dizer que nos rimos de nós mesmos.
Bravo.
ps: trabalhar o guião nas partes que intercalam os sketches, em vez do improviso desajeitado, ainda reforçaria mais o programa.
Acabou-se a festa da música. As enchentes para ouvir os autores clássicos e os melhores intérpretes. Gente a correr pelos corredores para escutar um quinteto de cordas... Vem aí um sucedâneo. Mais barato. Se será igualmente eficaz estaremos cá para ver.
O que dispensaríamos estar a ver era a actual ministra da cultura. Só aparece para defender os cortes orçamentais que o primeiro-ministro determina.
Afinal, ela revelou-se uma boa escolha. É... como hei-de dizer... "entalada" todos os dias e dá a cara para dizer que até gosta. Esquece-se que se espera também de um ministro uma palavra de alento para os que já não tinham quase nada e vão ficar ainda com menos. Ou que não pareça tão satisfeita por ser comida por parva.
Hoje disseram-me uma coisa extraordinária. "Quem tem interesse em divulgar os livros são os escritores". Aparentemente não interessam a mais ninguem neste mundo. Aos media, de certeza, que muito pouco. Fazem o jeito, são simpáticos, mas está enraizada a ideia que a literatura não muda o mundo. Este desprezo pela palavra escrita é o resultado de uma sucessão de governos ignaros e economicistas saídos do pós-trevas salazarentas. Só gostaria de sussurrar aos ouvidos dos jornalistas e dos donos de rádios, televisões e jornais: "Bíblia", "Mein Kampft", "O Capital"...
A literatura é tudo. Porque "é nela que se reflecte o céu"
17 de novembro de 2006
Não me lembro de ter visto na televisão pública o poeta Gastão Cruz que lançou um livro há pouco ou o José Agostinho Baptista, outro grande poeta que também teve um livro recente. E os dois escrevem com raridade.
Contudo, ontem, vi em prime time, um imbecil que já nos desgovernou a todos, a propósito do lançamento de um rosário de queixas qualquer...
Também não dei pelo facto de Bastardia da Hélia Correia ter recebido um prémio literário...
Mas vi noutro prime time um pateta de orelhas grandes a contar como é que se pode ganhar um ordenado chorudo num cargo público enquanto escreve calhamaços jornalights...
Interessante, as escolhas neste país... Que é o nosso.
"Mais de 30 em cada cem alentejanos vivem na pobreza, isto é, 180 mil pessoas, numa população de 535 mil habitantes", especificou António Murteira, tendo como referência os residentes na região com rendimento mensal até 300 euros, o que perfaz dez euros diários."
in Público
"O Governo Regional da Madeira vai gastar 6,6 milhões de euros nas festas de Natal e fim de ano"
ibidem
14 de novembro de 2006
Boa, a entrevista do José Carlos Vasc. ao Saramago, na última edição do JL. Velhos amigos permitem-se a uma franqueza que reverte em benefício do leitor.
Entre muitas frases que nos permitem conhecer a matéria com que moldou as suas narrativas, temos também acesso à origem da melancolia. E, para os mais distraídos, o elucidar daquilo que muitos tomam (também me aconteceu, em tempos, perceber assim) por arrogância e vaidade. É antes o contrário.
E Lanzarote, um lanzarote qualquer, é para muitos nós mais do que um acaso ou possibilidade. Quase um presságio que acabará por tocar outros. Mesmo sem nobeis.
9 de novembro de 2006

AUTO DA FÉ
Como português interessado em livros não quero ficar de fora da nova moda literária. Nem pensar! Lançada recentemente, a moda do escrutinar livros de sucesso à procura de falhas ou repetições está em alta. Gente que não seria capaz de descrever literariamente um burro, se tivesse um espelho, passa agora os dias de lupa em punho à procura do erro. Esta moda, da crítica light, nascida do anonimato dos blogues é na verdade a manifestação simples de uma característica nacional: a pseudo-delação pelos medíocres. Quem estudou a história da perseguição aos judeus em Portugal sabe o que aconteceu a milhares de pessoas, cercadas de gente desta. Acusando disto ou daquilo, apossavam-se depois estes abutres dos despojos do supliciado. Aqui, nem isso. Quanto muito o prazer da lama.
Agora é com repetições e plágios.
Se ser português é ser iníquo, também não quero ficar de fora. Por isso, aproveito já para denunciar um caso complicado em que VÁRIAS pessoas se plagiaram. Os nomes dos miseráveis são (os que consegui apurar): São Mateus, São Joã0 e São Marcos. A história é IGUALZINHA: um tipo que nasce num estábulo e que morre na cruz. Até o nome é o mesmo! Por favor, se alguém puder escrever artigos eruditos ou promover conferências sobre o tema, seria da maior utilidade.
Vou estar a partir de amanhã e até domingo na Madeira, para ajudar a coordenar a Maratona de Vídeo Magnavoce. Espero que muitos aspirantes a cineastas se inscrevam e, de câmara digital na mão se divirtam a receber alguma formação na área do cinema e a criar os seus próprios filmes. Inscrições em www.magnavoce.pt.
E, aproveitando a generosidade deste convite, aproveito para apresentar (com a ajuda de outros amigos) o RIO DA GLÓRIA, no Magnólia. Assim, os madeirenses estão todos convidados para ir no sábado (16h) até este espaço dar dois dedos de conversa e tomar contacto com o livro.
6 de novembro de 2006
2 de novembro de 2006
Ok, ok. Vou-me já calar com o assunto. Antes que isto faça lembrar o blogue dos saudosos Gatos Fedorentos que a partir de certa altura já só nos davam as datas dos espectáculos ao vivo. O que acontece é que um blogue é um sítio de partilha, logo os escritores falam inevitavelmente de livros. E frequentemente dos seus livros. Não por publicidade, como não faltará quem diga. Mas porque são obsessões e escrever ajuda a dar-lhes forma.
Assim(em ficheiro ranhoso de imagem) fica a capa.
A partir de dia 7 nas livrarias do país.E como tem sido no Prazer_Inculto que eu tenho falado mais sobre este projecto, decidi que será aqui o lançamento oficial.
Assim, no dia 8 ou 9, vou colocar aqui videos de vários actores a lerem excertos da obra e o que mais me lembrar. Fazemos assim uma festa. Sem champanhe nem caviar, hélas! que a internet ainda não chegou a tanto. :)
1 de novembro de 2006
Vou dizer uma coisa óbvia (mais uma, diriam os meus de-tractores-puf-puf,lol) mas tudo surge do trabalho. Sou lapalissiano, porque me parece sempre isto uma coisa espantosa. O meu lado mais preguiçoso gosta de sonhar com a possibilidade de conseguir algo de extraordinário sem esforço. Contudo, se fiz até hoje alguma coisa que merecesse alguma atenção, saiu-me de certeza do corpo, do pêlo, do trabalhinho aturado. E este princípio aplica-se a toda a gente que conheço. Não sei de grande escultura que não seja fruto de dias e dias de trabalho. Ou de pintura notável que não tenha custado ao seu criador anos de estudo e prática. Ou de colheita fértil de trigo que não tenha derivado de uma sementeira exaustiva, do arrancar das ervas e do esforço das máquinas e dos homens que as conduziam.,,,
Contudo, continuo a imaginar essa possibilidade, a jogar (ocasionalmente) no euromilhões e a acreditar que um dia vou poder estar perto da Grande Barreira de Coral sem ter gramado mais de 20 horas de voo. Ah, e já agora, sem ter suado para arranjar dinheiro para o bilhete...
Bom, vou trabalhar...
30 de outubro de 2006
29 de outubro de 2006
A p... da gripe voltou a atacar-me. Trouxe a tosse com ela, a ver se me dobrava, e ainda tocou a trombeta do nariz entupido. Debilitado e farto de enfiar mel com aguardente goela abaixo, lá fui à farmácia. Ia pelos Ben-uron (1 euro e não sei quê).
Acontece que o merceeiro de serviço achou pouco.
"Oh... isso não é o mais indicado. Baixa-lhe a febre e tal". E eu estúpido: "Então o que é que acha que...?"
E já o "Cêgripe" (4 euros e tal) em cima da mesa. "E queria tb o medicamento para desentupir, n era...?", a nova maravilha fez a sua aparição. Uma coisa da Vick que faz correr o ranho cara abaixo como se fôssemos Julietas tristes. "Ah... e o xaropezinho para a tosse... não é?"
Mais duas larachas ensaiadas e lá estou à porta, saquinho branco cheio de porcarias na mão e um farmacêutico satisfeito do outro lado. Venha o próximo.
Percebe-se melhor o Sócrates nessas alturas.
ps: espero que a coisa das férias de Natal dos professores não passe de mais um boato da oposição. Ou vou ter de me juntar a eles na próxima manif. Só quem não deu aulas no Básico ou no Secundário é que não percebe a necessidade desse descanso. Aliás, cada vez mais reduzido, dada a invenção todos os anos acrescida de reuniões para discutir o sexo dos anjos, o formulário A para a estatística X ou resolver o estranho caso da MALANDRICE QUE PRENUNCIA O CHUMBO...
26 de outubro de 2006
De vez em quando é pedagógico ser júri do ICAM. Aceitar o desafio com a honesta esperança de "finalmente poder fazer justiça".
Num certo sentido, isso acontece. Se formos honestos e nos distanciarmos dos nossos gostos pessoais em favor de critérios objectivos e diria, algo pomposamente, do interesse nacional.
Mas também dá para perceber duas coisas. A primeira é que há mais boa vontade do que talento. Um cada vez maior número de pessoas quer trabalhar em cinema. O que não quer dizer que saiba escrever um argumento, realizar ou produzir um filme. Ou, na maior parte dos casos, que tenha tido sequer uma formação séria e competente nessa área. Mas sobre o ensino artístico haveria mais a dizer, nomeadamente sobre QUEM anda a ensinar o QUÊ e COMO....
A segunda, é que a coisa é bastante matemática. Cada membro do júri aprecia um projecto, segundo critérios claros e atribui uma votação de acordo com esses critérios. O resultado final, em geral, surpreende toda a gente. Mas esse é o problema da democracia: o mínimo denominador comum.
Se juntarmos a isto, a chusma de pessoas que se vão sentir injustiçadas, ou simplesmente feridas nos inchados egos, ficamos próximos do trabalho missionário-suicida.
Ao contrário do que parece. Contra mim falo.
25 de outubro de 2006
Subitamente descubro o porquê de alguma autocensura que me tolheu em certos escritos. Fui contagiado pela falta de humor nacional. Não podemos rir de nós mesmos. Tudo o que eu disser será tomado como um ataque a isto ou aquilo.
Penso no "Rio da Glória", que brinca com a literatura light, com as diversas igrejas, com a crítica literária, com a visão que muitos brasileiros têm do país colonizador distante, e com vário outros assuntos intocáveis e sorrio.
Eta chuva de pedras que aí vem! :)
22 de outubro de 2006
É domingo e chove.
Na caixa de correio chega-me o que parece ser a versão legítima da "Nota Pastoral do Conselho Permanente Conferência Episcopal Portuguesa sobreo referendo ao aborto".
Aparentemente o novo chefe dos bispos católicos, no seu ar bonacheirão, democrata e familiar até, achou por bem esclarecer as coisas. Que não haja confusões: a coisa é para ficar como está. As mulheres devem continuar a malhar com os ossos na cadeia se tiverem a triste ideia de se enfiarem num vão de escada para serem raspadas e sangradas. O que é bem feito, para não serem todas umas putas, ingratas ainda por cima, que não só tiveram a ousadia de terem o que eles, bispos, não podem ter, sexo, como ainda não querem ficar com todos os filhos que dali saírem. O inferno depois de mortas não será suficiente. É preciso ameaçá-las com o inferno em vida.
Resumindo, o texto diz o seguinte:
"Nós, Bispos Católicos, sentimos perplexidade acerca desta situação. Antes de mais porque acreditamos, como o fez a Igreja desde os primeiros séculos,que a vida humana, com toda a sua dignidade, existe desde o primeiro momento da concepção." Daqui, a reter a frase "desde os primeiros séculos".
"..Para os fiéis católicos o aborto provocado é um pecado grave porque éuma violação do 5º Mandamento da Lei de Deus, ?não matarás?, e é-o mesmoquando legalmente permitido"
"Não podemos, pois, deixar de dizer aos fiéis católicos que devem votar "não" e ajudar a esclarecer outras pessoas sobre a dignidade da vidahumana, desde o seu primeiro momento." Daqui basta fixar "não" e "esclarecer".
"Pensamos particularmente nos jovens, muitos dos quais votam pela primeira vez e para quem a vida é uma paixão e tem de ser uma descoberta." Sobre o empenho dos padres em participar da descoberta da paixão dos jovens, já ouvimos falar o suficiente.
"O aborto não é um direito da mulher. Ninguém tem direito de decidir se um ser humano vive ou não vive, mesmo que seja a mãe que o acolheu no seu ventre. A mulher tem o direito de decidir se concebe ou não." É bonita e romântica esta ideia de acolher no seu ventre. Calculo que no recato das sua cela, quem escreve estas coisas imagine que o homem estenda a mão graciosamente e entregue uma gota de precioso líquido que a mulher deposita sobre o ventre e que no mesmo instante se transforma numa linda criança rosada.
Nem por um momento referem o que fazer com os julgamentos das mulheres ou com o facto de defender o sim neste referendo não ser uma aprovação do acto mas apenas o libertar das consciências de quem se vê em tribunal por ter feito algo que a destruiu um pouco.
Do meu ponto de vista toda a celeuma levantada por estas instituições deriva de duas questões: sexo e mulheres. O sexo se não é para eles não deve ser para ninguém. E as mulheres, já que existem, devem ficar-se no papel de mães. De parideiras acolhedoras.
Tudo isto estaria muito bem se não houvesse um movimento decidido e que irá votar em massa no dia do referendo,pelo Não. Enquanto os bananas do Sim, hão-de estar enfiados em centros comerciais ou em casa a discutir Proust, para depois se lamentarem de que "não percebem como aconteceu".
É domingo e chove no meu país provinciano.
19 de outubro de 2006
Há já alguns anos que me dedico a ler a proposta de orçamento de estado, pela internet. AQUI Serve isto para ter uma noção do rumo que o país vai tomar e para distinguir o trigo do joio. Assim, quando aparecem tipos muito sérios na comunicação social a dizer que agora é só maravilhas, ou o contrário, consigo focar-me nas razões que movem a criatura em vez de no seu truque de prestidigitação.
Este ano, contudo, o meu interesse estava na Cultura. Tive que aguentar até à página 239 de um relatório de 261. Já se vê a importância que este governo lhe atribui. O orçamento que representa 0,4% (zero vírgula quatro por cento) do orçamento geral, diminuiu 7%. Em média, os ministérios viram as suas verbas reduzidas em 5%.
Claro que isto se deve, do meu ponto de vista a 3 factores. Primeiro, não é um sector prioritário num orçamento restrictivo, ou obrigatório (como o da Defesa, por exemplo, que consome dezenas de milhar de milhões de euros), do ponto de vista de um engenheiro. Segundo, o desempenho deste ministério no ano transacto pede, claramente, um cartão vermelho. Terceiro, basta ler as propostas da ministra e do seu secretário de estado para perceber a ausência de visão e ideias.
Logo, do ponto de vista socrático, para quem é, bacalhau basta.
18 de outubro de 2006
A MULTA
Hoje, quando cheguei ao local onde ontem, debaixo de chuva, depois de HORAS a procurar lugar parei o carro, tinha uma multa. Eram 10h da manhã e o guarda Abílio tinha passado às 9.13h. E lá escreveu, com a sua letrinha pré-9ºano "60 euros". A coisa chateou-me, sobretudo por estar a contar com este acordo tácito que existe nas zonas superpovoadas de Lisboa de não se multar nas primeiras horas da manhã, a não ser que o carro esteja a prejudicar alguém. O que não era, de todo, o caso. Enfim, a verdade é que a floresta de carros onde o meu desgraçado de quatro rodas se encaixava se tinha sumido antes do guarda aparecer. Azar o meu.
Mas fiquei lixado.
Da mesma forma que ficam lixados, os portugueses a quem se estão a tirar regalias. Não interessa se a situação é incomportável para o país, o facto é que lhes estão a mexer no bolso ou na segurança com que contavam. Isto é muito compreensível. O que não impede que o guarda Abílio, talvez em excesso de zelo, estivesse a fazer o que tinha de fazer.

16 de outubro de 2006
Deveríamos ter tomado como um sinal, o facto do primeiro gesto simbólico do actual governo ter sido o de retirar poder ao polvo farmacêutico. Desde aí, já se meteu com os autarcas, com o Alberto João, com todos os sindicatos, com os biliões de funcionários públicos, para citar apenas alguns dos elementos que gostariam que ficássemos quietinhos enquanto o barco ia ao fundo.
"Kamikaze", seria um bom nome para esta missão.
ps: enquanto escrevo isto, na RTP1, os autarcas batem no peito e invocam o testemunho da virgem sobre a sua honestidade. É divertidíssimo. Vê-los torcerem-se à medida que os fontanários, em vésperas de eleições, se afastam, quero dizer.

NOVO EXCERTO
A pedido, aqui fica um novo excerto do RIO DA GLÓRIA. Trata-se de um momento de uma história que Mário, uma das personagens principais, ouve contar. E é em virtude do relato das desventuras de Zeca Fumaça, que aqui se esboçam, que ele decide mudar o rumo do seu percurso.
"Viu-lhe primeiro o rabo temível, oscilando de um lado
para o outro, sinal de ferocidade. Depois o corpo malhado. E,
finalmente, a grande boca sangrenta dentro do peito aberto de
Jandira. A onça-pintada comia os órgãos que ainda há pouco
se ocultavam sobre os seios fartos da mulher. A onça alimentava-
se de tudo o que sustinha Zeca Fumaça, como se jantasse
na mesa de um padre em deboche. A dor bateu em Zeca como
uma montanha de pedras que lhe desabasse sobre o corpo e a
cabeça. Da sua boca saiu o grito "Jandira!", e precipitou-se,
a faca em punho, na direcção do animal. Era preciso soltar a
mulher, quem sabe ressuscitá-la. A onça não estava disposta
a ceder o seu bocado. Recebeu Zeca com as garras abertas e
as patas na frente do corpo. Mas ele nem sentiu as feridas,
ocupado com a visão da mulher pedindo socorro, morta.
Cravou a faca no bicho, uma, duas, mil vezes, até que um véu
opaco desceu sobre os olhos do animal e um de tule negro
sobre os seus. Quando acordou, tinha uma onça no peito e
tudo o mais desaparecera da sua vida...."
Sabemos tudo, na nossa imensa ignorância. Quando estamos em casa, claro, que quando se vive fora ou se sai regularmente percebe-se melhor quem somos.

Vai ao programa da manhã da tv pública, já ouviu falar de Pessoa e concorda até que foi um grande locutor, embora goste mais do Jorge Gabriel. O seu sonho é ser suficientemente rico para poder dizer barbaridades de manhã à noite e ter gente a abanar a cabeça que sim.

A espécie mais comum. "Sim, sim, estás para aí a falar, quero ver quando é me enrabas. Deves de estar a ganhar pouco, deves... pra tares aí com essa conversa toda..."
Engole tudo o que lhe dizem, desde que não o contrariem nos protestos. Já leu "O Código Da Vinci" e assistiu a um concerto da Marisa Monte.
15 de outubro de 2006
...perguntava ontem um amigo meu, pouco dado às novas tecnologias (é mais surf, desenho e tudo o que meta o contacto entre as mãos e a criação).
Eu lá dei uma resposta sofrível e vagamente clara.
Mas quando dou uma vista de olhos ao sitemeter e vejo não só a origem mas o que procuram no prazer_inculto, os milhares de pessoas que todas as semanas fazem o favor de aqui entrar (outras encalham, por acaso, e apressam-se a sair, claro), vindas de todo o mundo, percebo que um blogue é mais do que o sítio onde um tipo diz o que lhe apetece sobre o que lhe apetece. É sobretudo um lugar de partilha. Uns buscam informação, outros opinião, alguns têm apenas curiosidade em saber se existe uma coincidência entre quem escreve livros e quem exerce a cidadania. Alguns, não fazem sequer ideia do que se está a dizer. Nem dominam a língua. Mas ainda assim, picam fotografias ou desenhos que foram tirados em Tróia, ou nos Açores, ou da janela de casa e levam-nos com eles, para os seus próprios blogues. Para ilustrar novas ideias noutras línguas.
E isso, só pode ter o nome de partilha.
Houve quem considerasse exagerada a declaração do ministro: "Acabou a crise".
Eu, incluído. Porque ainda nessa manhã tinha andado na rua, no metro e nos autocarros, e escutado as pessoas. Grupos de 3 e 4 pessoas acabadas de serem despedidas, reformados a contar (literalmente) os centavos para o pão, outras ao telemóvel a gritarem enervadas com quem não lhes pagava...
Mas hoje, ao chegar ao centro comercial Vasco da Gama, percebi que estava enganado. Havia milhares de pessoas lá dentro. De uma loja para a outra, como se o Natal tivesse chegado mais cedo. E, sim, tinham sacos de compras nas mãos.
No cinema onde entrei para assistir a uma comédia a fila vinha até à porta. Famílias inteiras gastavam 5.20 euros por pessoa, acrescidos de mais 3 ou não sei quanto, por baldes gigantes de pipocas e de coca-cola. Eram 18h de domingo. Quando saí do filme, duas horas depois, ainda não havia lugar para pousar o tabuleiro da fast food...
De maneira que, senhor ministro, apesar de cá em casa não ser assim, deve ter razão. A crise é capaz de ter acabado. Pelo menos até ao final da semana.
13 de outubro de 2006
Pronto... Agora é definitivo. Vem aí o RIO DA GLÓRIA. 396 páginas que começam assim:
"São seis horas e ainda tudo dorme nos campos. Cobertos
de geada, mesmo se ainda é Outubro. O Volvo atravessa a estrada
de paralelos, veloz. Dos dois lados do caminho, as árvores
começam a secar; salgueiros e carrasqueiros misturados
numa cor mortiça. O motor é potente e acorda as lebres que se
mexem sobressaltadas nos seus abrigos de espinheiro. Lá dentro,
o homem olha para trás para ver se a menina está adormecida.
Não está: mira tudo com os olhos azuis muito abertos.
As nuvens coladas aos olhos. Os galhos das árvores a arranharem
na passagem. Treme no seu casaquinho de malha. A sua
pequena mão repousa sobre o colo da mulher nova e bonita.
Tão bonita. Tão nova. O penteado ao alto, os lábios apertados
no batom carmesim. Não responde aos olhares que a menina
lhe deita, olha em frente, deixando que a planície passe, fria,
por ela."

O Prémio Nobel da Paz foi atribuído a Muhammad Yunus, do Bangladesh, e ao seu banco Grameen, "pelo esforços na criação de desenvolvimento económico e social através de projectos de microcrédito".
Parece-me, um dos prémios mais justos dos últimos anos.
Esta ideia de confiar nos pobres é cada vez mais peregrina no mundo. Nos vários sentidos da palavra. Agora confia-se em quem não precisa. Vai-se ao banco pedir um empréstimo e eles querem saber se temos muito dinheiro, para confiarem. Ora se tivéssemos muito dinheiro não precisaríamos de lá ir. Pensamos nós. Errado. O dinheiro dos bancos não tem uma função social. Serve apenas de instrumento de troca e enriquecimento. Para permitir aos seus accionistas e administradores ir de férias para a Caledónia, em jacto privado (alguns com o cilício na bagagem, por causa do detector de metais), enquanto o resto, que somos nós, nem para ir a Tróia conseguimos poupar.
Yunus não pensou assim. Acreditou na honestidade dos que só podem ter a honestidade como bem. Do que eu conheço do mundo dos que têm muito pouco, sei que a maioria é estupidamente honesta. E que só quer uma oportunidade de poupar aos filhos o sofrimento que lhe foi infligido.
Se isto não merece um prémio nobel, não sei o que o mereça.
12 de outubro de 2006
11 de outubro de 2006
Marques Mendes...
O homem irrita-me. E não é por ser pequenino que eu também não sou grande. Até simpatizava com o nick ("shorty") que a miudagem de Carcavelos ou lá onde é que era lhe dava quando estendia o corpito na prancha de bodyboard. Mas desde que conseguiu, em tempo de vacas magras, chegar ao poder partidário, anda insuportável.
Esta de aproveitar a mais do que ansiada tentativa de um primeiro-ministro de dar alguma ordem ao despesismo local e regional foi patética e demagógica. E demonstrativa que ele não chegou à direcção do seu partido com paninhos quentes, mas por um aproveitamento de "coninhas", que ele há-de ser, apontando o dedo ao menino mil vezes mais corajoso do que ele: "Sra professora, o Sócrates estava a segurar os braços dos grandalhões. E eles coitadinhos só queriam continuar a comer o almoço dos outros meninos!"
Oh, shorty, vai lá brincar para o recreio, pá.

Antonio-Mancini-The-Poor-Schoolboy-
10 de outubro de 2006
9 de outubro de 2006
"Transe" o filme de Teresa Villaverde é de novo um trabalho interessante da realizadora. Depois do auspicioso "OS Mutantes", voltamos a ver a sua actriz-fétiche (com um bocado de exagero na afirmação) a abrir, como uma sequela, este novo filme. E vai, de facto, bem, num papel difícil.
As únicas fragilidades do filme derivam de erros de argumento. Sobretudo de estrutura (que calculo é capaz de ter existido, em tempos...). Embora este guião esteja já melhorzinho do que n'OS MUTANTES e, ao que dizem, a quilómetros do penoso ÁGUA E SAL. Mas Teresa Villaverde, tal como a esmagadora maioria dos realizadores portugueses, não só não percebe um boi de como se escreve um argumento, como nem sequer tem consciência disso. O resultado é um meio de filme um bocadinho penoso e uma sequência com um maluco libidinoso, que não estando mal, foi ali metida à cacetada.
Mas ainda assim, um filme a ver.
5 de outubro de 2006
Quando entramos numa loja de artigos baratos, que nascem como cogumelos nas nossas ruas, esquecemo-nos sempre que estamos a financiar uma das piores ditaduras do mundo. Um lugar onde a condenação à morte é quase certa, para os crimes que a prevêm (tráfico de droga, etc...). Mas com a aproximação dos olhares do mundo nos jogos olímpicos e a imagem de país de grandes negócios, as autoridades chinesas resolveram mostrar-se compadecidas. Assim, vão acabar com os tiros na cabeça à beira de valas da praxe. Agora, modernizaram-se com autocarros equipados com camas de injecção letal. Uma prova do bom coração chinês.
Mais informação aqui e aqui.
Logo de manhã, fico a saber pelo boletim da junta de freguesia que estão a ser feitas coisas pensadas "à " muito tempo... (Penha rules!)
Depois, desperdiçando tempo pela net, descubro num site de artistas de telenovela, o contentamento que muitos têm ao "pisar o palco" e ao "dar nas vistas". No primeiro caso, acho que o palco ainda se queixa das pisadelas. No segundo, têm toda a razão: ver a representação da maioria dele é como levar com um porrete nos olhos. Dá mesmo nas vistas.
Perplexo com este vocabulário, leio uma jovem, produzida e ambiciosa taróloga que, no Sapo, me garante que vou resolver assuntos que "me andam a tirar o sonho..."
Ok.
3 de outubro de 2006
As eleições no Brasil conseguiram ser previsíveis e surpreendentes, a um tempo. Previsível, a maioria de votos em Lula. Apesar de ser necessária uma segunda volta para o eleger, é a vitória da falta de escolha. Os democratas brasileiros, melhor dizendo, a maioria dos brasileiros, tiveram de engolir o sentimento de desencanto e traição a todo um conjunto de promessas e votar de novo no ex-salvador da esperança.
Surpreendente foi o triunfo da sem-vergonhice, com a votação em massa do corrupto antigo governador de São Paulo, Maluf. Uma operação mãos-limpas seria ineficaz nele. Seria necessária uma operação mãos-desinfectadas com nitroglicerina, para limpar toda a sujeira produzida contra o povo brasileiro. Esta desgraça foi ainda sublinhada pela eleição por Alagoas, de Collor, o homem deposto por um país indignado (um abraço para o meu amigo Alaor que ajudou a redigir o texto do impeachement).
Como cereja em cima do gâteaux, a reeleição de vários deputados envolvidos nos escândalos que abalaram o país nos últimos anos (mensalões, ambulâncias...) .
Só me resta enviar daqui, um abraço e votos de muita coragem para todos os meus amigos intelectuais, homens e mulheres inteligentes que vão ter que viver com isto. Se serve de alguma coisa, a gente está com vocês de coração.
29 de setembro de 2006

NEWS FLASH
Pausa para partilhar com os meus leitores de romances que o meu livro acaba de mudar de título. Dito assim, soa frívolo. Mas, do lado de cá, é um bocadinho como uma vala que se abrisse entre mim e o que escrevi. Tenho de ir à floresta à procura de uma árvore que possa estender entre o sítio em que eu me encontro e pedaço de terra onde as histórias estão a acontecer. O LIVRO DA GLÓRIA jaz lá no fundo. Caído pelo peso da sua pomposidade. Sinto por ele alguma compaixão, mas teve o destino das coisas que não se sabem adaptar ao novo curso das coisas. Estou no escuro e os nomes que aparecem, ao fundo, são ainda pássaros sem nome voando sobre palmeiras...
A propósito e-mail enviado por Vera Futscher relativo à demolição da Casa de Garret em baixo referido:
"A casa de Garrett poderia ter sido um pretexto. Não para o reduzir a um «equipamento» alimentado à custa de mundos e fundos, mas um pretexto para recentrar a memória colectiva, como que a recordar que o mundo não começou ontem. Um pretexto ainda para fazer descobrir ou redescobrir a sua obra, não apenas o seu nome ou o prestígio de monumento que automaticamente se lhe associa, e de nela rastrear a dimensão humana do seu Autor. A reconstituição minuciosa dos interiores poderia ter sido um momento de grande criatividade e cooperação interdisciplinar. Mas enfim, nada se criou, tudo se perdeu: nada ficou que pudesse ser transformado." http://www.casadegarrett.blogspot.com/ .
A questão de fundo é que não gostamos dos nossos melhores. Dos que nos acordam para aspectos da vida em que nunca teríamos pensado. Dos que nos levantam da nossa propensão natural para o troglodita. Ouvimo-los com ar blasé, como se também fôssemos capazes de descobrir as mesmas coisas sem ajuda. Que ninguém nos incomode com o pensamento de que seria bom assegurar que esta vida, generosa para nós, pode precisar de coisas como alimento, um tecto, o nosso agradecimento. Ou simplesmente ser lida. Fizemos isso com todos os que nos precederam: Camões, António José da Silva, Pessoa, o Miguéis. Não destruímos o Saramago porque ganhou um Nobel. Mas não há dia em que haja alguém que lhe não roa as canelas. E todos os dias nos esquecemos dos nossos poetas vivos. Dos prosadores com mais de 70 anos e que insistem em se manter entre nós para lá dos livros da escola. Ficamos calados à espera que morram. Que parem de nos esfregar na cara que não somos todos iguais no deslindar do mundo. Que há quem veja um bocadinho mais à frente na escuridão que nos envolve.
Depois de mortos, damos os seus nomes a ruas de subúrbio que mais tarde ou mais cedo farão parte da gigantesca metrópolis.
A casa do Garret vai abaixo? Normal, pelo que atrás foi dito. Pessoalmente preocupo-me mais em que o almoço do Cesariny lhe chegue quente a casa. Ou que nunca falte ao Herberto Hélder com que se abrigar. Mas tem a Vera razão quando refere o desprezo pela cultura. Acontece, que já o Eça (quase todo publicado postumamente) o dizia. E ainda estava vivo.
26 de setembro de 2006
Alguém deveria prevenir os aspirantes a escritor da existência da revisão. Quando se compra um livro imagina-se, geralmente, que está ali o fruto de alguma inspiração e de umas noitadas de trabalho (coisa de prazer e êxtase). Não é bem assim. Um romance é fruto de um longo trabalho de investigação, tentativa de domesticação de ideias díspares e muitos, muitos dias em que não se fez mais nada. Com o tempo e a experiência, este trabalho torna-se, ao contrário do que se possa pensar, mais lento e moroso. Os pormenores ganham uma importância extraordinária e a compreensão de que nada deve ser deixado ao acaso, apossa-se de nós.
Por isso, nesta noite, em que vou terminar de avalizar e acrescentar o enorme esforço do revisor, vejo as 397 páginas, subdivididas em 89.792 palavras ou 514.042 caracteres, como uma paisagem extensa que aguarda, tranquila, os leitores. Debruço-me sobre as sinalefas vermelhas e sobre as frases que construí ao longo destes anos com a concentração do copista. E constato que a impaciência que me tomava dantes pelo aperfeiçoar dos textos escritos desapareceu.
Resta a serenidade e, se tiver sorte, a Literatura.
24 de setembro de 2006
18 de setembro de 2006
A Internet e outros suportes/transmissores de imagem e som trouxeram uma mudança ao conhecimento humano que ainda não conseguimos avaliar. Mesmo para as gerações jovens era impossível até há pouco tempo ter a certeza exacta de que um filme ou uma música assistidos na infância eram verdadeiramete como nos lembrávamos. A tendência da memória de longa duração é a de eliminar os pormenores não-essenciais e de dourar os aspectos vulgares. Daí que se fique feliz com a memória de um passeio à Costa ou de um filme em que a protagonista era uma lontra. Os dvds, com a republicação dos êxitos vintage vieram alterar tudo isso. A qualidade ou está lá ou não (é por isso que o José Barata Moura será sempre grande e o Avô Cantigas não se safa...).
A internet vai mais longe. Deixa-nos reconstituir ao detalhe aquilo que conhecíamos, solidificando de forma exacta a memória. Não sei se isto é bom ou mau. Mas uma lucidez qualquer é capaz de nascer desta situação.
Dá-me sempre vontade de rir assistir ao deslumbramento das pessoas pelo que é "moderno", "actual". Pelo artista que retrata o seu tempo, como se nessa identificação pudesse haver outra coisa que não seja o mero reflexo do que se está a viver. Há, nos meios intelectuais, uma atracção compulsiva pela "última linguagem", que amanhã será a "linguagem out", tal como o último deslumbramento já passou, sem que se tirassem daí as necessárias conclusões sobre a noção de "temporal".
Para quem ainda tiver dúvidas, fica este exemplo onde todos os detalhes foram estudados à exaustão... na óptica dos anos 80.
ps: I rest my case.
17 de setembro de 2006
14 de setembro de 2006

HAVANA, FILME PERDIDO
O que acontece quando um actor de Hollywood arranja dinheiro para realizar o seu sonho de dirigir um filme, esquecendo-se que um bocadinho de talento, um réstea, um tremeluzir... seria útil? É assim LOST CITY, o pavoroso filme de Andy Garcia. Quem quiser ver um actor a fingir que realiza, enquanto copia todos os clichés do mundo, faça favor de ir comprar bilhete. Os mais sensatos, abstenham-se. Eu fui ao engano, no Optimus Open Air. E, apesar do bilhete ser de graça, ainda tive vontade de ir pedir o reembolso.
Fujam!
10 de setembro de 2006
Em conversa com A. lembrei-me desta crónica, publicada originalmente no JL e o ano passado, n'O MEU QUERIDO TITANIC. E porque está calor e ainda falta muito para se ouvirem os guizos, se enfeitarem as árvores e se pensar nos outros, publico-a aqui. De graça, para os meus não-leitores de livros.
"MERRY CHRISTMAS MR. GOD
Está frio, na minha sala com quadros na parede e um sofá simples mas confortável. Arrefeceu bastante, este Inverno. Daquele frio estúpido de quem mora ao pé da água e longe de montanhas que tragam neve. O telemóvel toca. É um amigo que mora longe e tem um motorolacinquenta. Dói-lhe já não sei o quê. Mas nada que não possa curar com um ida ao médico que ele poderá pagar. Vem-me à cabeça a imagem de um dos muitos sem-abrigo que se espalham pela cidade. Aquele telemóvel dava para umas quarenta refeições decentes, pelo menos...
Na televisão passam projecções eleitorais e agitar de bandeirinhas. Quanto terá custado todo este circo partidário? Não foi de borla, de certeza... De boleia com um motorista e dono de pequena agência publicitária, na província, fiquei no outro dia a saber que os outdoor são, agora, feitos em vinil. Para não se estragarem com a chuva, diz-me. Por umas centenas de contos podemos ver a cara escarrapachada dos candidatos ao poder, até o Chico vir da areia. O que quer dizer, por mais tempo do a duração das suas promessas. Ainda bem que se evoluiu: já parecia mal ver os papéis dos cartazes a murcharem em direcção aos buracos das ruas. Afinal já somos Europa.
Esta tarde, um actor de telenovela afirmava que "Natal era tempo de pensar nos outros". Fiquei varado de espanto. Nunca teria esta revelação se não fosse ele? Durante uns dias vamos dividir o que normalmente puxamos só para nós. Só não percebi se o prazo acabava mesmo à meia-noite de dia 25 ou se me era permitido ajudar os menos afortunados de vez em quando...
Já é tarde. O alcoólico que costumo ver deitado em papelões num recanto da D.Luis I já deve estar a dormir. Com que sonhará ele? Provavelmente com uma cama macia e um cobertor por cima. Lembro-me de Primo Levi, um escritor judeu italiano que sobreviveu a um campo de concentração, e interrogo-me em nome de quê conservamos gente a passar fome às nossas portas.
Imagino uma oração que começasse assim:
"Bem-aventurados os que acreditam que é necessária uma quadra festiva para se estar com os outros; os que julgam que o mundo é o mesmo desde que Deus o criou e que sempre assim será, ou por que outra razão ele o teria construído imperfeito; os que constroem estradas sobre estradas não se lembrando que um círculo não é mais que a junção de duas rectas tontas que não sabem onde para onde vão; os que defendem os direitos dos fumadores contra os fanáticos da saúde e que julgam ser sua a voz que lhes sai da garganta e não o som da droga mascarada de coisa avançada; os que se suicidam em nome de Alá, primos dos que mandaram executar judeus em nome de Cristo e irmãos dos que avançam com tanques pelas palestinas terras escritas sabe-deus-por-quem num bestseller chamado «Bíblia» e que tomam um prepúcio mutilado pelos homens como um sinal de imunidade divina; os que votam em candidatos que dizem transformar cidades-inferno em jardins-paraíso com um toque de magia; aos que têm tomates para mentir descaradamente a indispensabilidade de Valores Absolutos, enquanto à noite despem o fato e partem para engates nos seus carros de dez-mil-contos-pra-cima; às mulheres que dizem votar em consciência contra a despenalização do aborto e, na semana seguinte, vão (usando a expressão M.E.C.iana) «abrir as pernas a Londres», livrando-se do descuido; aos brancos que constroem casas à prova de pretos famintos; aos pretos que constroem casas à prova de brancos esfarrapados; aos preto e brancos que constroem casas à prova de todos os que não são iguais a si próprios; aos que julgam que o dinheiro que metem ao domingo na caixa das esmolas para a Senhora do Imaculado Coração, ou paras almas do Purgatório, vai direitinha aos pobres do mundo; aos que caminham embriagados para as catedrais de futebol e, beijando os cachecóis, dizem: «Isto é que é sagrado»; aos que julgam que as vozes discordantes se calam com manobras perversas, murros na boca e despedimentos; aos que bateram hoje nos seus filhos, julgando estar a dar-lhes uma mensagem de amor; às mães que se julgam pai e mãe; aos pais que se julgam mãe e pai; aos que cortam o cabelo no mesmo barbeiro do pai, porque não concebem que haja outra forma de talhar o bonito louro; aos que criaram uma ruga no meio da testa por tanto criticarem o mundo em vez de tentarem compreendê-lo nas suas imperfeições; aos jovens que acreditam que serão assim para sempre e que não existe nada para lá da perfeição dos seus corpos; aos Pais-Natais que se juntam às portas dos centros comerciais deixando as crianças confusas com o milagre da sua multiplicação; aos mesmos que descem de helicóptero em colégios pobres ostentando os logos das empresas patrocinadoras... Porque é deles, segundo o bestseller, o Reino dos Céus.
E já agora..." Bem-aventurados:
Os que abraçaram hoje de manhã aqueles com quem vivem; os que se voluntarizam todo o ano para encontrar roupas, comidas e palavras de reconforto e levam tudo isso aos vãos de escada húmidos, tresandando a urina; aos que acreditam que é possível viver sem mentir aos outros; aos que crêem que o mundo é mais imperfeito que a Vida; aos poetas, por verem as várias dimensões do mundo e tentarem pôr em palavras a linguagem do Invisível; aos frades de toda a espécie que se levantam cedo e no desconforto das suas celas se sentem felizes por estarem habitados por uma luz maior que natural; às mulheres que lavam escadas para pôr o pão no prato de filhos que, em troca, lhes cospem em cima e reclamam ténis de vinte contos ou mais; aos homens que amassam cimento e pregam tábuas, em silêncio, para que atrás referidos atletas se divirtam em tertúlias e orgias de batas pretas e cervejolas; os que atravessaram continentes para no meio de línguas estranhas e máfias exploradoras tentarem criar uma família; os que irão morrer por estarem algures no mundo a dar vacinas e a meter colheres de alimentos na boca de crianças com a face coberta de moscas, enquanto à sua volta, famintos desconfiados discorrem sobre o que fará este estrangeiro no meio deles e se será muito difícil estrangulá-los e fugir com o seu relógios que parece valioso Bem-aventurados os que amam... Porque deles, deveria ser o Reino da Terra..."
Estranho... De repente, a minha sala amornou... Feliz Natal."
in O MEU QUERIDO TITANIC
9 de setembro de 2006
Por uma vez, as nossas pides de trazer por casa não gastaram o seu tempo a gravar os mexericos das actrizes das novelas e a vendê-los aos jornais de escândalos. Usaram um bocadinho dos seus dias de trabalho para tentar encontrar provas para aquilo que todos nós sabemos há anos e anos. Mas não servirá para nada, este esforço, enquanto tivermos um sistema judicial que permite que uma prova "deixe de existir" porque não foi cumprida uma formalidade legal. Enquanto não se tirar esse inacreditável tapete dos pés dos advogados pagos a peso de ouro pelas máfias futebolísticas e outras, a ideia de "Justiça" não passará de uma anedota. "Vi, ouvi, houve crime, mas o guarda republicano esqueceu-se de preencher a alínea 22 do formulário, por isso, vá na paz do senhor"... Ora tenham dó da gente.
7 de setembro de 2006

A DINASTIA
Um grupo de pais e de filhos, vestidos com roupas de opereta, fazem a mesma cara com que os juízes da coroa julgaram o Tiradentes e entram na arena. Vão orgulhosos e felizes por aquecerem as brasas moribundas de uma crueldade que se julgava perdida. Em breve enfiarão ferros na carne de um animal criado apenas para morrer por isto. Pela crueldade. Pela visão da crueldade. Mostra-se o bicho - que até tem nome - e de relance vemos-lhe as carnes que se dilaceram, o sangue que espirra e pressentimos o ritmo cardíaco que dispara. É o pior de Portugal a vir ao de cima.
A pergunta é: o que faz a televisão pública, que devia estar na vanguarda do pensamento humanista, ali? Por que razão, semana após semana, o dinheiro dos contribuintes é gasto com a transmissão em directo da tortura de animais? Alguém me explica?
28 de agosto de 2006
Uma última vírgula, uma frase ajeitada e o "LIvro da Glória" entra na fila dos anexos, à espera do chamamento do e-mail para a editora. Vai contente, vagamente ansioso. Mas é normal, acabou de chegar a este mundo. Sabe que ainda tem as vírgulas trocadas e que muitos artigos definidos se perderam pelo caminho.
Quatro da manhã e em várias partes do mundo está-se em guerra. Noutras, haverá pessoas a dormir, encolhidas em buracos, tentando iludir a fome até que a manhã chegue. Enquanto um romance viaja pela net, alguém cai para o lado, exausto, tocado ainda pelo êxtase do outro corpo. Nalgum hospital perto, estará uma criança a nascer e um homem velho a despedir-se do mundo. E enquanto o vento empurra o cortinado do quarto de onde escrevo, pergunto-me para que serve aquele livro que segue em anexo para o revisor...

24 de agosto de 2006

"PLUTÃO PODE SER DESPROMOVIDO"
Parece que finalmente vai ser feita justiça. A despromoçao do planeta Plutão à 2ª liga não é mais do que um acto que há muito deveria ter sido executado.
A mim, bastantes vezes me lixou a vida, aliando-se a Saturno e colocando-se entre Vénus e o Sol. A coitadinha da nossa abelha astróloga, nem sequer sabe o que há-de dizer para nos consolar, nessas ocasiões.
É para ver se estes astros aprendem !
23 de agosto de 2006
Este ano, vi o Verão acontecer diante da minha janela. Gente de calções e sapatilhas a caminho da praia, restaurantes que fecharam desejando aos clientes "Boas Férias"...
Em troca, tenho um manuscrito na frente.
You'd better be good, baby... Ou vais ter que me ouvir cada vez que te olhar para a capa e me lembrar que deixei o mar à espera!
(lol)
P.C. "Costa da Caparica"
20 de agosto de 2006
Chego ao fim da sua escrita, a pilha de páginas que cresceu desmesurada desde a primeira palavra. Já não é meu e ainda o não acabei. As personagens vivem o que têm de viver e tudo o que eu lhes planeei como destino existe apenas vagamente. Uma mulher negra surge do escuro de uma porta que dá sobre uma passagem, uma irmã abraça outra dizendo: "Veja o que me fizeram? Já nem sou mais mulher", enquanto por detrás dela, o rio Preguiças faz juz ao nome...
Encontro por acaso na net, uma imagem do lugar exacto onde estas duas mulheres choram e contam uma à outra as vidas separadas que tiveram.

Mais uns dias e não haverá mais nada para contar. Apenas rever. O círculo fecha-se para sempre e o livro será o que tiver de ser.
Há qualquer coisa de triste nesta alegria.












